Sunday, October 01, 2006

acaso

No acaso da rua o acaso da rapariga loira.
Mas não, não é aquela.

A outra era noutra rua, noutra cidade, e eu era outro.

Perco-me subitamente na visão imediata,
Estou outra vez na outra cidade, na outra rua,
E a outra rapariga passa.

Que grande vantagem o recordar intransigentemente!
Agora tenho pena de nunca mais ter visto a outra rapariga,
E tenho pena de afinal nem sequer ter olhado para esta.

Que grande vantagem trazer a alma virada do avesso!
Ao menos escrevem-se versos.
Escrevem-se versos, passa-se por doido, e depois por génio, se calhar,
Se calhar, ou até sem calhar
Maravilha das celebridades!

Ia eu dizendo que ao menos escrevem-se versos...
Mas isto era a respeito de uma rapariga,
De uma Rapariga loira,
Mas qual delas?

(...continua, mas por agora faz-me sentido acabar por aqui)
Álvaro de Campos

6 Comments:

Blogger intruso said...

:)
que belo poema...

Fernando Pessoa e Álvaro de Campos; podia ler e reler e reler e reler.......

este acaso não conhecia... bonito!

beijo

11:58:00 PM  
Blogger Joana Gancho said...

também não conhecia... este "acaso"...
LINDO!
(sem mais palavras...) :)

12:31:00 PM  
Anonymous Anonymous said...

É sempre a outra, o outro...
Beijinho.

1:55:00 PM  
Anonymous Anonymous said...

Sinto uma paz quando aqui chego...esta música...

4:49:00 PM  
Blogger magarça said...

Um feliz "acaso" :)

12:24:00 AM  
Blogger h said...

acaso...por acaso, sem ser por acaso, é bom ter-vos aqui!

12:44:00 AM  

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